Somos apenas três, uma família pequena. A família perfeita existe, o que não existe é uma família perfeita sem defeitos. Engraçado isso, porque a família perfeita tem problemas como qualquer outra, o que a diferencia é como ela lida com tais problemas, se resolve ou não, se deixa ou não o problema acabar com ela. Tivemos problemas, muitos, a maioria concentrados na época em que era eu a insistir em frequentar a igreja. Hoje todas essas pessoas podem olhar para vocês, hoje vocês podem estar à frente de todos esses casais e estarem de cabeça erguida, porque vocês venceram todos os problemas.
“Eu queria ter alguém que dividisse comigo todas as maravilhas (...) de ter nascido com esse pai e essa mãe. Eu queria ter, quando meus pais se sentem sozinhos ou decepcionados ou apertados de grana, apenas metade da culpa gigantesca que é ser um filho. Eu queria ter, nos jantares alegres e também nos insuportáveis, apenas metade dos méritos.” Essas palavras de Tati Bernardi, que se encaixam muito bem no que sinto agora.
Vocês nunca transmitiram para a mim a dor que sentiram, e ainda hoje sentem, por não terem suas duas outras filhas aqui entre nós. Eu, por outro lado, nem de longe consegui suprir a ausência delas, não fui capaz de cumprir com as obrigações de filha por nós três.
Se hoje eu posso lutar pelos meus objetivos, é porque me protegeram de muitas coisas ruins que a vida apresenta, mas fizeram o que poucos pais fazem, e que todos os pais devem fazer: me ensinaram a me proteger dessas coisas, ensinaram a enfrentá-las. Vocês sempre me mostraram a realidade, nunca me enganaram e sou infinitamente grata por isso, por ter crescido sabendo os valores das coisas. Nunca estive em uma bolha, como muitos pais tentam fazer. Acertaram em cheio nisso!
Mesmo sendo filha única nunca me senti “super” mimada, protegida, nem nada, e como disse agradeço, pois isso me fez crescer com os pés bem firmes no chão. Chão é uma boa palavra para descrevê-los, sempre cumpriram sua missão de base, de apoio e é assim até hoje. As raras vezes que estive sozinha foi por minha escolha, como agora. Agora estou sozinha. Mas continuo recebendo o apoio, a força, a companhia nos telefonemas cada vez mais longos.
Pai, eu sinto falta das piadas, às vezes sem graça alguma. Sinto falta de ouvir o senhor chamando minha mãe de “maria preá”. Sinto falta de suas reclamações, de dizer que “não é pra voltar tarde”, ou falando mal do meu cabelo novo, da roupa que minha mãe fez e etc. De ouvir aquele barulhinho engraçado que você faz quando deitado no chão, da sua cara de bravo, das suas palhaçadas na hora de tirar foto... Mãe, sinto falta dos seus micos, de vê-la no altar da igreja. Sinto falta de escolher suas roupas, como é que tá se virando sem mim hein? De você reclamando do meu quarto, de vê-la lendo tudo em voz alta, das suas animações com coisas tão pequenas... Enfim, estou com saudades de vocês, de saber que tem pessoas que me amam acima de tudo e da nossa rotina que sempre foi tão harmônica.
Espero que saibam que eu estou dando o meu máximo para que sintam orgulho de mim. Espero muito um dia proporcionar a vocês tudo o que vocês merecem. O meu amor sincero deixo aqui registrado. Sei que é clichê, mas tenho que afirmar que tenho muita sorte de ter pais como vocês e que estão sendo os melhores pais que eu podia ter.