
Te ver em qualquer besteira, todos dias, qualquer dia é dia de lembrar de você. E todos os dias é dia de sentir saudade. Mas hoje é um dia, é um número, é uma dor. É a dor daquele dia que vem como se alguém apertasse o replay.
Lembro das palavras que nem sei quem pronunciou "Parece que o Ronaldo...". Até hoje não entendo minha crise de riso, foi uma mistura de descrença e desespero. As mãos trêmulas pegando o celular e te ligando uma, duas, três, quatro, cinco, diversas vezes, o coração insistindo que era mentira, aquela ligação muda e sem explicação, a dor de cada tecla que apertei procurando um número na agenda, um número que me salvasse daquilo, um número que do outro lado dissesse o que eu queria ouvir. Aquele seu amigo, nem gostava muito de mim, ouviu meu Alô com tanta dor, se irritou quando eu disse pra parar com brincadeira idiota e passar o telefone para você, que isso não era uma piada legal, aquele teu primo-irmão sem meias palavras derrubou o chão sobre meus pés. Eliminou o riso do meu rosto. A única coisa que enxerguei foi uma porta, a porta do meu banheiro.
Aquelas horas trancada no banheiro foram as mais longas de minha vida, suficientes para ouvir tua voz me passando trotes no meio da noite, lembrar do teu abraço que sempre queria mostrar o quanto eu era magrela e você o forte. Lembrar dos teus conselhos, do meu primeiro porre do qual você me salvou. Que seu número estava sempre nas chamadas recentes do meu celular, e não importava quando onde ou pra quê, eu sempre falava liga pro Ronaldo. Lembrei das noites passadas em minha calçada, de suas piadas de mal gosto e de suas brincadeiras intermináveis. Lembro de pitadas de ciúme quando era eu a falar de algum cara, sim porque era esse o seu papel de irmão que você fazia mais perfeitamente: cuidar de mim. E como uma irmã, não estive em todos os lugares. E aqueles dias em que tinha vontade de estar nas suas longas histórias de carnaval. Aquela promessa para os meus 18 anos, que não deu tempo. Eu lembrei que não tenho nenhuma foto contigo, acho que é a única coisa da qual me arrependo. Era você quem tirava minhas fotos, atualizava a rede social, mas nunca tiramos fotos -juntos. E mesmo que ninguém te veja ao meu lado, cada dia que tive você em minha vida esta registrado. Cada telefonema bobo, como aqueles no meio da noite, só para gravar minha voz de meio dormindo meio acordada. E os programas de índio que eu arrumava, que você incrivelmente ia mesmo que fosse só por alguns instantes você não deixava de ir. Meu aniversário que você salvou. Dezenas de amigos, mas aquele que muitos achavam que pouco se importava comigo, foi o único a ir na minha casa me dar um abraço, salvar meu dia.
Tudo isso, e tudo que o buchecha fez por mim eu lembrei naquele banheiro, a voz da minha mãe me chamando preocupada, parecia que estava longe, tudo que eu queria era abafar o som dos meus gritos, o meu choro incontrolável que caia junto com a água fria daquele banho, aquele banho que me acordava, que me dizia: é verdade. E ai lembrei que já não falava contigo com tanta freqüência, já não te via mais tantas vezes, não nos falávamos mais todos os dias. Cada vez mais me via fora do seu circulo, eu estava saindo da vida de tanta gente naquela fase. Mas lembrei de você me falando que admirava meu jeito de lidar com as coisas, minha coragem de trabalhar cedo, meu jeito de não chorar por homem, você me pedia tanto isso, pra ser forte pra não chorar por qualquer um. Parece que estava adivinhando, meio que falando “chorar por mim pode magrela, porque eu sou seu maninho”.
Eu sinceramente não queria mais chorar, porque todo mundo que te conheceu, mesmo quem só te viu uma vez, percebeu que você era alegria, você era todo alegria. Você foi um período doce da minha vida, você é uma lembrança doce por toda a minha vida. E eu sei que você foi sabendo disso. Ao mesmo tempo as lágrimas que caem se juntam a tantas outras espalhadas por tantos lugares onde alguém sente tua falta. Esse choro transtornador, que deixa tudo a minha frente sem sentido. Minha mãe sempre fala para mim rezar pra você, mas desde aquele dia minha fé nunca mais foi a mesma, Deus nunca mais tocou meu coração como antes. Naqueles dias de desespero eu fui capaz de jogar tudo pro alto, de dizer que Ele não existia. Eu não sou pessoa legal, eu nunca serei querida como você é até hoje. E mesmo assim você foi, por que é algo que nunca irei entender. Todo meu sofrimento no dia em que somam-se 3 anos desde que te vi pela última vez, já sem aquele sorriso que espremia seus olhos, já sem aquele sorriso contagiante e encantador, é tanto tempo. Me pego pensando que não quero mais fazer as mesmas coisas que planejei contando que você ia fazer parte. E penso ao mesmo tempo o que poderia ser diferente, o quanto seria bom continuar contando com você. Toda a descrença trouxe junto a certeza de que a partir daquele dia eu tinha um anjo da guarda.
Você, Ronaldo Sá Lopes, merece estar presente em meus pensamentos numa música que toca, numa cantada barata, numa piada, num conselho repetido, numa foto que só existe dentro da minha cabeça. A nossa amizade que me fez tão bem te fez um irmão, o irmão mais velho, o parceiro. Ronaldo a vida nos uniu a morte nos separou, o que eu não esqueci é que a única coisa certa na vida é a morte, e isso me faz viver com a responsabilidade de te dar orgulho, porque um dia o que nos separou vai nos unir, e eu quero ter a certeza que você vai dizer "Minha magrela, meu orgulho".